Um dos poucos leitores que acompanham meus escritos, José Valente, pediu-me para escrever sobre a violência em Conquista. Fiquei meio intrigado. Por que nosso amigo quer que eu escreva sobre isso? Eu não entendo do assunto. Portanto, fico pensando sobre os motivos que o levaram a tal requerimento. Em termos pessoais, procuro levar a vida bem longe desse campo. Minha existência é uma imitação paraguaia daquela adotada por Ghandi, ou seja, da não-violência. Mas, sendo a violência uma evidência e dela não podendo escapar, tentarei fazer uma abordagem que por certo pouco contribuirá para minorar o problema. Talvez até o agrave.
Começo com duas perguntas ingênuas: Será que a violência é inerente ao ser humano? De onde ela vem? Inicialmente diria que dentro da tradição judaico-cristã, as primeiras notícias que temos em relação ao seu surgimento remota a tempos primevos. Isso mesmo: tempos remotos.
Bota tempo nisso. Segundo essa tradição, a violência surgiu com os primeiros habitantes terrestres.
Um incompreensível desentendimento entre os irmãos Caim e Abel plantou no palco da Terra um dos primeiros dramas vividos pelo homem. Os dois protagonizaram as primeiras cenas de violência. Conforme a narrativa, o motivo foi um dos mais torpes possível: a inveja. Este defeito humano é tão presente em nossas vidas, que os moralistas ocidentais posteriormente o classificaram como um dos sete pecados capitais. Foi isso que aconteceu: Caim, movido por esse sentimento baixo e irresponsavelmente mesquinho, ao verificar que tudo produzido, feito e adquirido pelo irmão era superior às suas coisas, sentiu-se demoniacamente inferiorizado e por causa disso acabou tirando-lhe a vida.
As causas da violência na modernidade são as mais variáveis. Um provérbio americano diz que em todos os seres humanos habitam dois cachorros. Um é mau e cruel; o outro é manso e bom. E aí vem a advertência: Vai vencer sempre aquele que você alimentar mais. No caso, procure saber qual cachorro você tem alimentado mais para entender melhor sua violência pessoal.
Considerando que a violência não se dá apenas no âmbito da inveja, vamos ver uma que atormenta famílias e sociedade em geral. Refiro-me às drogas. Pronto. Eis aí um dos pontos nevrálgicos da vida contemporânea. Qual é o problema? Ou melhor, quais são os problemas da droga? Diria que o que mais me impressiona nela é a forma planetária com que se expandiu. Só para termos uma noção, informo o seguinte: Outrora, numa cidade como Vitória da Conquista, todas as pessoas sabiam quem era ou não usuário. Quem vendia e distribuía e quais os dias da semana ela chegava.
Hoje a coisa está profissionalizada.
É dificílimo saber quem é quem e louco é quem quiser pesquisar. A barra ficou pesadíssima.
A droga está infiltrada em todas as camadas sociais e raras são as famílias que estão livres do problema. Em nossa visão, o maior infortúnio da droga (incluindo aí as chamadas lícitas, como o álcool, por exemplo), é que ela não fica apenas no âmbito do usuário individual. Começa com ele, em seguida pula para a família e posteriormente o infeliz começa a perturbar a sociedade (assaltando e matando).
A droga em si não é culpada de nada. Os indivíduos que fazem mau uso dela, sim. È público e notório que grandes figuras da humanidade eram – e alguns ainda são - usuários de droga. Só que a maioria dessas é muito habilidosa no seu uso. Tanto que alguns nem parecem ser. O cantor Tim Maia dizia, em tom de blague, que “maconha não vicia ninguém” e para confirmar sua assertiva continuava: “tenho um amigo que fuma maconha há vinte e cinco anos e não é viciado, ah, ah, ah,”.
O maior problema dos viciados, especialmente aqueles que não têm base moral nenhuma, é não saber ficar na deles. Quando entra nesse território a maioria não sabe como parar e grande parte não tem como e não quer voltar. Tem uma meninada aí que mete o pé no acelerador do crack e adeus Bahia!
No caso dessa droga, usada geralmente pelos menos favorecidos, a coisa é chocante. E pior: não vai acabar nunca. De forma rápida, observa-se também a seguinte situação: O cara é mal educado, vive com pessoas mal educadas, mora mal, come mal, trepa mal, é mal visto pela sociedade, não tem amparo social e previdenciário do Estado, ou seja, vive em um cenário totalmente sombrio.
Sua inclusão social é zero e sua representação pessoal incolor. Pois é justamente esse indivíduo, com esse perfil, que ao entrar em contato com as drogas se “sente outro”. O mundo fica colorido, existem jardins à sua frente, mulheres lindas ao seu redor, bebidas e comidas maravilhosas à sua disposição, etc. São mudanças sensíveis para quem sempre esteve na lama. O sujeito após a primeira experiência começa a sentir que há um mundo melhor para ele.
E esse mundo é possível quando dá um “pau” num baseado, num cachimbo de crack ou cheira 10 gramas de cocaína. O adolescente quando acaba de “dar um tapa” numa pedra de crack, sente sua vida dando um salto “qualitativo” maravilhoso, inesquecível. Ele sai do Inferno em que vive e cai diretamente no Paraíso. Tudo isso em trinta segundos. É uma experiência e tanto.
Daí em diante, sua vida só tem sentido quando está fumando ou cheirando. Enquanto ele se afunda na droga, sua vida profissional (quando tem) vai para o beleléu. O dinheiro para comprar começa a ficar escasso.
E a partir desse momento quem bate à porta é a fiel esposa da droga: a violência. Esta traz consigo agressões e mortes [dentro da própria casa] assaltos, seqüestros e outros terrores. Não há ordem social capaz de diminuir e evitar tanta subversão. Não há mais quem os segurem. Os caras querem ir para o Céu a qualquer preço e alguém tem pagar. Esse alguém somos nós....Depois o papo continua.
Um abraço cordial e até a próxima.
Paulo Pires - Professor UESB-FAINOR