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Vítimas do medo

por nildofreitas on Julho 04,2009

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Violência. Palavra forte, banalizada e trágica, muito em moda atualmente. A violência no passado se limitava aos campos de batalhas, as guerras civis e o confronto militar entre nações, mas nos dias atuais define quase tudo que ameaça a raça humana e a vida do nosso planeta. Hoje viver nas grandes cidades é se expor continuamente à violência; e morar na província é fugir dela. Ledo engano. Para muitos, esse sempre foi o sonho dos que buscam a paz que perdeu e não existe mais nas capitais. Mas, infelizmente, a vida no campo ou no interior deixou de ser sinônimo de tranquilidade. As mazelas, hábitos e costumes, péssimos, a bem dizer, chegaram com a globalização, e foram se incorporando ao nosso cotidiano de forma tão irreversível que inconscientemente mal percebemos, ou melhor, imaginamos que faz parte do desenvolvimento e o aceitamos como “progresso”.  

A vida saudável, boa alimentação, uma melhor proximidade com a natureza; enfim, era o que se buscava encontrar na vida bucólica do campo, mas vejo que tudo faz parte, cada vez mais, de um saudoso, romântico e distante passado. O que é lastimável. Com a ordem inversa do êxodo rural, que antes fazia com que os campos ficassem despovoados, as cidades de médio e grande porte inchando, sem planejamento e com isso transferindo os mesmos problemas adquiridos no inicio de muitas dessas metrópoles. Hoje estamos bem informados e observamos que o interior compartilha dos mesmos erros e pecados dos grandes centros urbanos; a liberdade nunca esteve tão monitorada quanto agora. Nem de perto se compara com os tempos de repressão política, e nem nos piores momentos em que o mundo esteve privado de suas crenças e valores (como no comunismo), devido a guerras e incursões ideológicas e ditatoriais. A realidade é que estamos vivendo isolados, dentro de nossas casas que mais se assemelham a fortalezas, muros altíssimos, onde a sala tem uma câmera, em cima da televisão outra, e no quintal fios esticados e circuitos internos para denunciar o inimigo social invisível e ameaçador –; sempre filmando a hora que saímos e retornamos.

E o que é pior, a vigilância nunca esteve tão presente em nossas vidas, e nem sempre conseguimos compreender o porquê de tanta segurança e exposição de intimidade. Paranóia deve ser a explicação.  O fato é que devido aos índices alarmantes de violência, atualmente não podemos mais viver sem sermos monitorados, principalmente nos locais de trabalho, onde as câmeras registram os passos dos empregados e dos visitantes. Tudo é gravado 24 horas por dia. Começa quando se entra no prédio, passa, quase que obrigatoriamente, pelo momento em que são abertas e fechadas as portas até a hora que, finalmente, o trabalhador senta em sua mesa e começa a executar suas tarefas. A realidade, apesar de dura, é essa. Por mais que se evite o constrangimento, a nossa privacidade está sendo invadida, fazendo com que todos se tornem e sintam-se reféns participantes de verdadeiros realitys shows televisivos.  Em verdade as pessoas costumam seguir padrões predeterminados pelo mundo moderno onde a novidade amedronta e incomoda. A indiferença, a desconfiança ou até o descaso virou rotina na vida das pessoas. Quantas vezes observamos um olhar vindo de alguém em sua direção e você não corresponde? Certamente que é pelos exemplos que estamos acostumados a testemunhar através dos telejornais e o instinto de defesa faz com que nos tornemos mais arredios, frios, desconfiados e a cada vez mais isolados.

Poucos são os que abrem um sorriso, nos reconhecem e cumprimentam como igual. De acordo Sigmund Freud, “o homem evolui através dos seus próprios medos”. Contrariando o seu pensamento, creio ser necessário aprender a controlar o medo para evitar que ele se apodere da nossa razão. O lado bom do medo é que ele nos guia e aponta as situações de perigo, nos tornando mais precavidos e não vítimas do medo, apenas isso.  Caminhar pelas ruas, mesmo nas pequenas cidades do interior, já não é mais seguro, apesar de centenas de câmeras acompanhado seus passos, a violência não é contida. O mais curioso é quando acontece um crime ou um acidente, na maioria das vezes, ninguém sabe ou viu, pois ninguém quer se comprometer. Prevalecendo portanto a lei do silêncio. A vigilância sistemática previne, mas ainda está longe de inibir a criminalidade. Basta dizer que segundo estatística publicada no Jornal A Tarde, de 30/03/2009, nos primeiros 85 dias deste ano aqui na Bahia foram registrados 452 assassinatos, ou seja, praticamente 150 homicídios por mês. Uma realidade que assusta e nos deixa perplexos – um verdadeiro massacre! Imaginem esta mesma estatística a nível Nacional. Pasmem, um genocídio!  

Para os cristãos que ainda acreditam em dias melhores, como eu, noto que a esperança se esvai e os ensinamentos Daquele que aqui esteve com a pregação de paz e irmandade, ao retornar se sentirá entristecido quando presenciar que seus seguidores estão fazendo o contrário. Nós, humanos, ainda estamos em tempo de reconstruir a vida ou fazermos o nosso apocalipse.

 

 

Ezequiel Sena


 


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